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terça-feira, 18 de maio de 2010

aroma...PICANHA...Ele...






"...você me disse que eu sou petulante, né? Acho que sou sim, viu?..".* Oswaldo Montenegro




Picanha do avesso


1 peça de picanha
Sal grosso
600g de provolone


Essa foi a primeira receita que o lançou na cozinha!

"...como a água que desce a cachoeira e não pergunta se pode passar..."*

Gostava de fazê-la aos domingos em que ele, nossa filha e eu ficaríamos em casa degustando o final de semana e os (dis)sabores da vida em família.

Regava esses momentos-degustação com seus DVD’s favoritos: Eagles, Roupa Nova, Norah Jones, Phil Collins...

Momentos que aqueciam a casa e o nosso coração com o sabor-calor-amor que proporcionavam.

Poucas vezes preparou para os amigos (e só para aqueles... mais chegados que irmãos!**)...

Era a sua maneira de dizer que amava...

Lembro-me do Lacerda que mudou-se com a família para o prédio depois de uma dessas degustações... os dois eram José, curiosos, projetistas e inventores...e essa parceria dava certo, muito certo...

Saudades...sabores...lembranças...

Caminhava até o açougue da esquina, escolhia a carne, comprava o carvão.

Estojo de churrasco sobre a mesa da cozinha, ele o abria com cuidado, verificava se faltava algum de seus utensílios.

Era só esperar...

Sempre reclamava que a faca do estojo não era boa para aquele serviço.

"...você me disse que o meu olho é duro como faca... acho que é sim, viu?..."*

Pegava a tábua de carne e debruçava a picanha sobre ela com o mesmo cuidado que, muitas vezes o vi embalando nossa filha.

Dizia que se a picanha pesasse mais de um quilo e duzentos, um quilo e trezentos era pura enganação.

- Ó a do cara, meu, querendo me enrolar! E ria, seu sorriso abundante...

Perfurava a peça de ponta a ponta e, como se fosse a jóia mais delicada, começava a virar literalmente a carne pelo avesso.

Gordura toda pra dentro, era a hora de recheá-la com o queijo, da mesma forma como recheava com suas piadas os momentos com os amigos.

Cortava o queijo à pont-neuf*** e enchia todo o corte da carne com as tiras.

O interessante era que ninguém podia colocar a mão, mas podíamos esperar por um “filha, pega isso...”, “querida, arruma aquilo...” ou mesmo um “aqui tá tudo certo, ninguém precisa ajudar, viu?”...

Ríamos os três da sua independência culinária!

Chegava a hora do sal grosso. Despejava todo aquele sabor numa caixa plástica e envolvia a peça nas pedrinhas que lembravam momentos amargos e de ansiedade, prenúncios de bonança e felicidade.

...e que destruo sempre com minha palavra o que me incomodou...acho que é sim...como fere e faz barulho o bicho que se machucou...*

Levada ao fogo por uma hora e depois virada por mais uma hora...

Horas que resgatavam nossas esperas...o casamento que chegava, a filha que nascia, o emprego que surgia, a mudança que viria...

Depois de pronta, reunidos à mesa, compartilhava seu troféu-aroma-textura com a gente.

Hoje eu, nossa filha e os amigos degustamos lembranças-sabores...
...ele, louvores-aromas do céu.




Mirepoix


* Oswaldo Montenegro – Todo mundo é lobo por dentro (petulante)

** Bíblia Sagrada – Provérbios 18:24b

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