
"...você me disse que eu sou petulante, né? Acho que sou sim, viu?..".* Oswaldo Montenegro
Picanha do avesso
1 peça de picanha
Sal grosso
600g de provolone
Essa foi a primeira receita que o lançou na cozinha!
"...como a água que desce a cachoeira e não pergunta se pode passar..."*
Gostava de fazê-la aos domingos em que ele, nossa filha e eu ficaríamos em casa degustando o final de semana e os (dis)sabores da vida em família.
Regava esses momentos-degustação com seus DVD’s favoritos: Eagles, Roupa Nova, Norah Jones, Phil Collins...
Momentos que aqueciam a casa e o nosso coração com o sabor-calor-amor que proporcionavam.
Poucas vezes preparou para os amigos (e só para aqueles... mais chegados que irmãos!**)...
Era a sua maneira de dizer que amava...
Lembro-me do Lacerda que mudou-se com a família para o prédio depois de uma dessas degustações... os dois eram José, curiosos, projetistas e inventores...e essa parceria dava certo, muito certo...
Saudades...sabores...lembranças...
Caminhava até o açougue da esquina, escolhia a carne, comprava o carvão.
Estojo de churrasco sobre a mesa da cozinha, ele o abria com cuidado, verificava se faltava algum de seus utensílios.
Era só esperar...
Sempre reclamava que a faca do estojo não era boa para aquele serviço.
"...você me disse que o meu olho é duro como faca... acho que é sim, viu?..."*
Pegava a tábua de carne e debruçava a picanha sobre ela com o mesmo cuidado que, muitas vezes o vi embalando nossa filha.
Dizia que se a picanha pesasse mais de um quilo e duzentos, um quilo e trezentos era pura enganação.
- Ó a do cara, meu, querendo me enrolar! E ria, seu sorriso abundante...
Perfurava a peça de ponta a ponta e, como se fosse a jóia mais delicada, começava a virar literalmente a carne pelo avesso.
Gordura toda pra dentro, era a hora de recheá-la com o queijo, da mesma forma como recheava com suas piadas os momentos com os amigos.
Cortava o queijo à pont-neuf*** e enchia todo o corte da carne com as tiras.
O interessante era que ninguém podia colocar a mão, mas podíamos esperar por um “filha, pega isso...”, “querida, arruma aquilo...” ou mesmo um “aqui tá tudo certo, ninguém precisa ajudar, viu?”...
Ríamos os três da sua independência culinária!
Chegava a hora do sal grosso. Despejava todo aquele sabor numa caixa plástica e envolvia a peça nas pedrinhas que lembravam momentos amargos e de ansiedade, prenúncios de bonança e felicidade.
...e que destruo sempre com minha palavra o que me incomodou...acho que é sim...como fere e faz barulho o bicho que se machucou...*
Levada ao fogo por uma hora e depois virada por mais uma hora...
Horas que resgatavam nossas esperas...o casamento que chegava, a filha que nascia, o emprego que surgia, a mudança que viria...
Depois de pronta, reunidos à mesa, compartilhava seu troféu-aroma-textura com a gente.
Hoje eu, nossa filha e os amigos degustamos lembranças-sabores...
...ele, louvores-aromas do céu.
Mirepoix
* Oswaldo Montenegro – Todo mundo é lobo por dentro (petulante)
** Bíblia Sagrada – Provérbios 18:24b

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