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domingo, 16 de maio de 2010

saudades...ESFIRRAS....infância...




“Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
Casemiro de Abreu



Esfirra

2 tabletes de fermento
3 copos de leite morno
5 cs de açúcar
1 cs rasa de sal
3 cs bem cheias de banha Saúde
Farinha de trigo para amassar.
Deixar crescer.
Recheio a gosto.


Quando minha mãe misturava o fermento, o leite, o açúcar e o sal...
O cheiro morno se espalhava pela casa e com ele a boa-nova: hoje tem esfirra!
Essa receita aromatizava e completava a festa nas tardes em que o calor do sol dava lugar às gotas frias da chuva e que não podíamos correr pelo quintal...
Mesmo assim, saboreávamos correr pelos cômodos da casa, numa algazarra aconchegante.
As esfirrinhas da mãe completavam as viagens de férias para a casa dos avós em Antonina. Quando a mãe falava em esfirra, era só esperar...coisa boa sempre vinha...

A comunhão, a festa, o compartilhar...o saborear a infância...

Assim como os grãos finos e aerados da farinha se pega-pegavam divertidamente na bacia quando ela era peneirada, meus irmãos e eu bailávamos pela cozinha, esperando o momento em que o calor do forno aquecesse o nosso coração como o amor e o carinho da mãe.
Um “olha o forno” ou um “parem de correr pela cozinha” sempre surgia em meio a todo o sabor que experimentávamos.
A gordura usada na preparação tinha que ser Saúde. Segundo a mãe, melhor não tinha para completar o sabor e amaciar...

Massa a crescer, hora de preparar o recheio.
Carne moída, cebola bem picadinha (para que os pequenos não encontrassem vestígios!!), cheiro verde, sal, um toque de pimenta e tomates à parisiénne*.

Huuummmmm...

Recheio pronto, massa crescida em bolinhas enroladas uma a uma como os carinhos que a mãe fazia na gente nos momentos de dor...
Uma a uma ela abria e colocava um pouco-sabor do recheio e as fechava cuidadosamente em triângulos.

Quantas vezes em meio ao ritual, invadimos a cozinha, querendo ajudar na construção dos sabores...as primeiras esfirrinhas saíam meio quadradas, tortas e se abriam quando assadas, deixando que o caldo da carne escorresse pelas assadeiras...nesse momento a expectativa se realizava naquele cheiro-sabor, calor-amor que invadia a casa como o amor invade nosso coração.

Cada poro, cada vão, cada alma, cada cômodo...

Indicativo de que a degustação estava próxima, de que a viagem estava ali a uma noite e que tudo isso, nas mentes infantis, seria eterno, como se esquecêssemos que a vida só começava...

Valia a pena! Melhor nem lembrar... para que o sabor daqueles momentos não se tornassem razão!

Ainda hoje quando nos reunimos pra jogar conversa fora e contar as novidades, vira e mexe, aquele aroma-sabor está lá!

Preparadas não mais com a agilidade de outrora, mas com o mesmo saboroso amor...

Acompanhantes fiéis das esfirrinhas da mãe eram os pãezinhos de maçã...

Mas isso já é uma outra história-sabor!...



Mirepoix
*Tone Teichmann – Tecnologia Culinária

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