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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

amargo...JILÓ...vida...

















Alguns jilós cortados em 4 partes, ervas frescas, sal e azeite de oliva
Pode parecer incrível, incoerente e até mesmo incabível para alguns, mas vim comer jiló esse ano...foi num evento dos meus alunos de Gastronomia.
Que experiência!
Nunca havia provado porque sempre ouvi as pessoas dizerem que era amargo, mas que fazê-lo fritinho com cebola era uma delícia...(e vc acha que eu ia arriscar???)
Decidi então não protelar mais tal acontecimento...
E hoje este texto surgiu porque um amigo, daqueles amores pra vida inteira, perdeu um irmão e, nesses momentos, a reflexão sobre a vida, sobre as dores, sobre as perdas vêm como uma brasa viva aquecendo e queimando meu coração e minha mente...
O amargo do jiló...a dor da separação...a vida protelada...
Longe das minhas intenções igualar a perda de um irmão com a degustação de um jiló...mas vc percebe como a vida se apresenta sempre em pequenos goles de bom vinho, finos acepipes e também em cálices de um fel intragável?
Se é que existe essa relação de vantagem/desvantagem, em relação ao jiló, pude protelar a degustação do “talzinho”, mas a perda não pode ser protelada e quando nos referimos à morte...ela sempre nos pega de jeito!


Talvez a vantagem do jiló seja que se vc mariná-lo no dia anterior no azeite aromatizado ele perde o amargo...e mesmo se o consumimos normalmente o amargor passa logo...
Bom, se pensarmos na morte, também podemos ir marinando com as lembranças, com o amor que fica...(qdo fiquei viúva, perguntei pra algumas pessoas e por algum tempo, o que eu deveria fazer com o amor que ficava...com as palavras não ditas, com aquelas que foram ditas...com o perdão não pedido e não dado...ninguém teve resposta...fui vivendo)...
Mas ainda vai um tempo (e que tempo!) até que a dor suma e fique só a saudade (que pra mim é aquele morninho que fica dentro da gente) e continuamos caminhando...
Meu gordinho, o que tenho pra te dizer é que estou ao teu lado sempre pra te dar o abraço, te dar o colo, o carinho e o aconchego que vc precisar...até que o amargo da dor suma e o morninho da alma apareça...e depois, ainda...continuaremos caminhando.
Com amor...
19/8/2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

saudades...BOLO DE AIPIM...amor...











*“...não sei porque você se foi...tanta saudade eu senti...”

Bolo de aipim
(gosto daquele da Primor)

Para falar de saudade, basta um café com leite e uma fatia de bolo de aipim!
Acordei com saudades...sabe daquelas que umedecem os olhos e lambuzam o coração de vontades? Isso mesmo, igualzinha ao bolo de aipim úmido e doce que compro na padaria perto de casa.
Nossa, é uma mistura tão singular-abundante, tão doce-carinho, que traz consigo uma esperança-quente-dorzinha...sei lá...hoje acordei assim.
A cada porção de sabor-saudade relembro momentos da minha história, vividos intensamente e que degustados agora na maturidade, me convenço de que eu os viveria (se pudesse) de novo e do mesmo jeitinho...
Outro dia li no blog do Queiroz algo mais ou menos assim: “sentir saudades do que não existiu, dói bastante”
...ainda não sei se concordo com ele...
Sem achismos mas já achando, acho que a saudade só é sentida pelo que vivemos, pelo que experimentamos e, cá venhamos, já experimentamos muito, certo?
Minha experiência agora é com a solidão de um amor...ahhhh, essa danada...e talvez por vivê-la hoje, sinta saudades do que já vivi de bom e do que também não foi tão bom assim...
“...chego a ter medo do futuro...e a solidão que em minha porta bate...e eu gostava tanto de você, gostava tanto de você...”
E qual é o problema em querer andar de mãos dadas, sair pra jantar, bebericar um vinho, confidenciar elogios e carinhos, caminhar lado a lado para ver o sol se por, acordar abraçadinho, fazer amor nem que seja rapidinho, ver o mar, rir junto das discussões, dividir a vida e tomar um café com leite quentinho com uma fatia de bolo de aipim?
“...pensei até em me mudar...lugar qualquer que não exista o pensamento em você...vou morrer de saudade...não, não vá embora!

- *Tania Mara/ Composição de Edison Trindade – Gostava tanto de você

quinta-feira, 17 de junho de 2010

pão francês ... manteiga... café com leite ....





Tudo bem que o meu café da manhã não é dos melhores, mas com certeza é o mais recheado de pensamentos mastigados e encharcados de sensações...
Pra mim o pão tem que ser amanhecido e a manteiga Aviação, mas hoje foi com margarina mesmo...
Uso sempre uma das duas canecas que ganhei da minha pequena...uma, da Betty Boop (que me lembra que sou sexy...hehehe) e a outra, cheinha de corações e mães espalhadas pela porcelana (que me lembram que amar é uma escolha)...
Ahhh, como são bons esses momentos!
Já percebeu como as nossas coisas de fora vão se misturando às coisas de dentro e vamos nos construindo?
São 11h36min de uma quinta-feira...calma, não sou folgada não (bom, pelo menos acho que não), é que hoje não dou aula pela manhã...e tanta coisa já aconteceu sem mesmo ter saído de casa. Pra dizer a verdade, fiz o caminho da cama para o banheiro, para o pc, para a cama, para a cozinha...me dou esse presente sempre que posso!
Quando me sentei pra molhar o meu pão no leite, lembrei de uma conversa com um “aminet” quando falávamos da imagem que montamos nas nossas fantasias da pessoa ideal (se é que existe)...aí, ele me mandou um texto – também não sei se dele ou não, mas que me chamou a atenção e até brinquei com ele, dizendo que ele então sonhava comigo (modesta de doer!)...no texto dizia que buscava uma mulher que tivesse cérebro!
Logo de cara quis bater nele, mas degustando meu café desejei abraçá-lo e dizer-lhe obrigada!
Obrigada porque toda vez que leio a nossa conversa e molho o pão no leite me lembro de quem sou e do que me formo...e aí, encaro o dia, lavo a xícara, me recomponho, junto os farelos do pão pela mesa e sigo em frente...numa edição revista, atualizada e marcada pela margarina que caiu no pijama...


Aminet = amigo de internet

terça-feira, 1 de junho de 2010

amigos...POLVILHO...cantina...






“...eram os últimos:
risos, provas,
relatórios e biscoitinhos
com gostinho de faculdade...”




Biscoito de polvilho com gergelim

Polvilho
Queijo
Leite
Óleo
Ovos
Sal
Gergelim


Última prova...
Último dia...
Últimos encontros...


A prova era de Gastronomia Natural assim como era natural que um dia o curso acabasse e cada um tomasse o seu rumo.

Entre risos alvoroçados, gostinho de fim disfarçado, tristeza escondida nos olhares durante a prova...
Concluímos o curso – Turma 2008 de Gastronomia do CESUMAR.

Terminada a prova, descemos para a cantina afim de “glicosarmos” e prolongar a despedida.

Entre biscoitinhos de polvilho, refris e cafés... dávamos os últimos retoques nos relatórios de alguns e os outros davam apoio...

Como eram crocantes aqueles momentos na cantina em que comíamos os biscoitinhos e dividíamos planos e sonhos.

Os biscoitos de tamanhos variados, uns mais gordinhos, outros mais magrinhos se comparavam aos colegas que se reuniam naquele 26 de junho...

Cláudia, Alecsandra, Lorena, Juju, Dorinha, Victor, Jaq, Marcinha e eu...

Foram quatro pacotes de biscoito, muitas risadas e alguns choros...

Como foram saborosos esses momentos...

Cada biscoito com sua crocância...

Cada comentário com sua picância...

Cada amigo com seu sabor, seu cheirinho...

Em breve nos encontraremos para uma feijoada, uma pizza ou uma sopa.

Que sabor vamos degustar não importa!

O que importa é saborear a goles encorpados a amizade conquistada!!

Gotas espessas de vida








Oito de maio – o último encontro de três abundantes, mexidos e recheados encontros...
O curso – pós docência em Gastronomia...
A disciplina – qualidade como diferencial gastronômico...
Os alunos e o professora – histórias marinadas em temperos de vida, em confortos de alma...
Tantas mãezinhas, vozinhas, pais e lembranças povoando a farta mesa de degustação...
Olhos úmidos de aromas, sabores e algumas dores seladas em ternura...
Entre tortas, bracholas, petit fours, pedaços de nuvens e até mesmo um baconzitos serviram de mise en place para o momento de compartilhar a nossa essência: vivências em gotas espessas de alegria e saudade...
Ao final de cada relato, um novo sabor surge, um novo aroma penetra suave mas impregnantemente na alma...
Um novo olhar para a vida!
Olhar que vem para nos melhorar;
Olhar que vem como bálsamo para as dores;
Olhar que vem para marinar lembranças que ainda sequer foram imaginadas, mas que hoje temperam o presente, degustam o passado e salpicam o futuro!

menino...TRUFAS...homem...





"...ah esse infinito labirintos de desencontros amorosos..." *Vinícius de Morais




Trufas
6 trufas de amarula
(eu prefiro as da Cacau ShoW)


Nos conhecemos pela internet...conversa vai, conversa vem...identificação.
Aí, marcamos um café, desmarcamos; marcamos outro, desmarcamos.
Por fim, uma visita ao hospital...
Pelas conversas já sabia que gostaria dele...é o meu número, é o meu jeitão...
Depois desse encontro, outro surgiu...
Regado a trufas de amarula...seis...meia dúzia...
Quando olho pra ele, sinto-o consistente nas ideias como a trufa com sua casquinha de chocolate...dura ao quebrar-se, mas que dissolve na boca quando degustada...
Quando o leio, vejo-o como o recheio...cremoso-sonhador-doce, alcoólico-forte-menino...
menino-homem-menino...
Continuamos conversando...não sei ainda se nos encontraremos novamente...
Somos turrões...não abrimos mão do que queremos!
Eu quero mais do que pode me oferecer, aliás, muito mais...
Ele, só pode me oferecer o que não quero...
Então...melhor continuar caminhando...caminhando...caminhando...

afetos...SASHIMI...selados...






Sashimi de salmão e uma sakerinha
(escolhemos o Momiji para a celebração)


Um ano era o tempo que nos separava do último encontro...
Nessa ausência de degustações, saboreamos algumas vezes idéias e a vida por e-mails que surpreendiam quando abria minha caixa postal...
O sashimi veio todo fresco e arrumado numa daquelas barquinhas, intercalado com pepinos, cenouras, alfaces, gengibre e wasabi...
A vida veio de novo como degustações de carinhos, olhares e análises gustativas...
A sakerinha nos chamou a atenção...abacaxi com hortelã, sakê, açúcar mascavo e gelo...
Na chegada um abraço apertado...gostoso...demorado...cheio de sabores-aromas-desejos...
No jantar troca de olhares-convite, toque de mãos-apelo e sorrisos pela nossa falta de habilidade com os hashis...
Saudades...goles gustativos...olhares sensitivos...sashimis picantes...sorrisos aromatizados...
Ahh...como saboreamos cada minuto do nosso encontro...
Como degustamos a vida que temos e os momentos que pertencem a nós dois...
Não nos pertence ainda o que o futuro nos prepara, além de outros saboreios, outras degustações ou outros encontros...mas uma coisa nós sabemos:
o que vier, sempre degustaremos com intensidade, perfumados de picâncias, marinados em afetos, selados pelos toques efervescentes de pele, de mãos, de corpos...

amigos...PIZZA...professores...


...no começo era só um professor-novo e um novo-professor.
Hoje...
não sei se é amigo porque foi professor ou se foi professor porque é amigo...





Pizza

Farinha de trigo
Azeite
Açúcar
Fermento
Melhorador
Sal
Água


De tanto “aporrinharmos” o tio (assim chamado carinhosamente nosso professor Thiago), ele resolveu cozinhar para nós.

Como era a última aula, do último semestre, nada melhor que uma boa pizza.

Rimos muito quando comparamos o momento com o Brasil, onde tudo acaba em pizza...

E o nosso curso literalmente acabou em pizza...

Mise en place preparado, começou a mexilança.

Na verdade, a mistura da farinha, do azeite, do açúcar, da água e da diversidade de sabores preparados se compara às diferentes “figuras” da nossa turma.

Todos diferentes em torno de um só objetivo: formar-se...

O molho de tomate preparado na noite anterior aderiu à massa crocante, formando o leito para as coberturas...assim como nossas mentes serviram de amparo aos conhecimentos recebidos.

Cada ingrediente no seu pote; cada conhecimento na sua caixinha...

Cada colega, um caminho...

Aulas, risos, aromas, trabalhos, choros, texturas e algumas perdas pela jornada...

Uns amadureceram, outros descobriram caminhos possíveis...

Gorgonzola, parmesão, azeitonas, anchovas, manjericão...

Texturas, sabores e amores conquistados em dois anos e meio de curso, degustados em meio a aulas, discussões, alguns ransos, alguns “malas”...

Tudo marinado em muita amizade, solidariedade e amor...

A pizza?? Ficou boa, muito boa!!

A faculdade?? Continua lá, recebendo outros futuros gastrólogos.

A turma?? Cada um seguindo o caminho escolhido.

A amizade?? Ahhhh...essa vai ser pra sempre...ou até que uma outra pizza nos reúna pra matar a saudade!!

Amigos e professores: Amo muito tudo isso!!!

19/6/2008, às 9h30, durante a aula...

elas...BATATAS...vida...





"...um dia frio, um bom lugar pra ler um livro..."* Djavan


Caldo de batata

Batatas cozidas
Sal
Pimenta
Bacon frito
Calabreza
Parmesão ralado grosso
Um pão italiano




...bebericar um vinho...

...curtir uma bela companhia...pode ser de uma filha, de uma amiga, da família, dos amigos da filha ou de um amor (o que não seria ruim...)

Ou somente...ler um livro...

Huummmm...olhar o mar seria bom também!!

Deixo de lado as possibilidades (acho que mais sonhos-desejos que possibilidades, mas vá lá!) e me atenho a sentar-me na cozinha em companhia de minha filha, num dia frio, com direito a pijamas e pantufas e, degustando a nossa iguaria, saboreamos juntas lembranças de uma porção de vida que não mais existe fora das lembranças...mas que formam a nossa história.

A cada bocado...um riso...um aroma...de momentos vividos com gostinho de esperança, com gostinho de futuro.

A cada pão imerso no caldo, um motivo pra continuar seguindo em frente...realizando projetos-sonhos que apimentam nossa vida.

A cada suspiro de delícia...uma lágrima insiste, marinando o que não pode ser mais degustado - a vida que tínhamos a três: eu, ela e o Zé...

Não sei se um dia entenderemos, mas também agora já não importa...somos sobreviventes...como tantos outros...

Reconstruímos a cada dia...
Nos revemos a cada bocado de vida...
Sonhamos outros sonhos...
Realizamos novos projetos...

Eu e ela,
Ela e eu,
E o nosso caldo...


Mirepoix

- Nem um dia - Djavan

domingo, 23 de maio de 2010

melhor...TERCEIRA...idade...





"Senhor,
Alcancei em minha vida, sob tua graça,
O estágio da terceira idade
E hei de continuar vivendo
Intensamente tudo o que me designares"
*Gianny de Sousa Caldeira






Terceira ou melhor idade?


Quem não se recorda de um pão caseiro, de um doce de abóbora, de uma macarronada ou até um arroz com feijão feito com as mãos e o coração de uma mãe, avó ou bisavó?

Ahh...quantas vezes passei férias na casa de minha avó, com meus irmãos e primos, e saboreei as delícias e os carinhos que ela fazia com as mãozinhas de pele delicada, enrugadinhas pelo tempo.

Hoje revivo esses tempos em lembranças açucaradas pela graça e pelo cuidado de Deus, quando coloca sempre um “mais experiente”, “mais sábio”, “mais idoso” ao meu lado para caminhar comigo.

Vô e pastor Melo, vó Maria, vô Castilho, vó Benê, meus pais, meus irmãos da melhor idade na fé IBV7...

Quantas receitas, conselhos e alguns puxões de orelha, mas sempre recheados com amor e cuidado em querer bem!!

Ainda tenho muito que aprender...

Peço a Deus que me dê sempre o abraço, o olhar e o carinho das melhores pessoas da melhor idade.

28/9/2008 – culto da manhã IBV7

* Gianny de Sousa Caldeira - Trecho da Oração do Idoso

análises... BISCOITO...diferencial...










Aquele da Primor mesmo!





Biscoito de nata


Entre aparências, aromas, texturas e sabores, a degustação daquele biscoito gerou o buchicho na aula.
Impressões diversas de um mesmo objeto...
Como acontece na vida...
Olhamos os acontecimentos e saboreamos atitudes diferentes...
O biscoito creme, opaco e poroso como as situações em que nos encontramos indiferentes, sem brilho e perfurados por espaços a serem preenchidos com outros sabores ou amores, quem sabe?
A vida, linha tênue entre o amargo, o doce, o salgado e o azedo.
Já percebeu como estamos em constantes análises sensoriais e gustativas da vida e de nós mesmos?
Com o biscoito de nata não foi diferente.


Qualidade como diferencial gastronômico

sexta-feira, 21 de maio de 2010

união...PÃEZINHOS...vida....




"O chão brilhava, a casa ria..." * Djavan

Pãezinhos de maçã

2 tabletes de fermento
1 xíc. de açúcar
1 copo de água morna
Sal
3cs de banha
1cs de manteiga
2 ovos
750g de farinha de trigo
Recheio: 2 maçãs em fatias e 100g de passas
Cobertura: 2 copos de açúcar e 4cs de leite em banho-maria


Era criança quando aquele livro de receitas União surgiu com sabores e desenhos que me enchiam a boca d’água e faziam com que sonhasse com aquelas delícias.

Um desses sonhos-delícia se concretizou quando, pela primeira vez, minha mãe fez aquele sabor pra nós como todos os carinhos que sempre fazia...

O morno do fermento com a água e o açúcar geravam em mim um sentimento de realização que estava bem próximo...

Massa a descansar, ela delicadamente descascava as maçãs, sempre fresquinhas, e as fatiava, colocando aqueles pequenos aromas num prato.

Poucas foram as vezes que salpicou as passas nessa preparação como também foram poucas as vezes (e se me lembro bem, nenhuma...e até hoje é assim...) em que pedimos que ela nos fizesse algum sabor-carinho e ela se negasse.

Mãe é assim...

Pãezinhos recheados e levados ao forno que, aos meus olhos infantis e sonhadores, lembravam a vitrine das lojas em época de Natal que apresentavam os brinquedos, objetos do meu desejo...

Quando aquele aroma-quentinho se espalhava pela casa, meu coração acelerava como quando a menina espera o passar do namorado...

Ah...aquele carinho-sabor, aroma-amor que enchia o meu coração e acalentava sonhos que desejava realizar.

Pãezinhos assados, ela preparava a cobertura e os passava um a um...como embalava os sonhos da criança...

Hoje, adulta e madura, saboreio os pãezinhos de maçã que minha mãe ainda prepara e relembro os sonhos...

Namoro...faculdade...casamento...pós...filha...mais faculdade...

Alguns se concretizaram; outros se perderam ou foram substituídos como aquelas gotinhas da calda que ora se lançavam ao chão, ora eram amparadas pela mesa.

O que eu sei é que esses saboreios-sonhos realizados ou não, hoje me fazem bem, muito bem!

* Djavan - Maçã

explorações...SUSHI...trocas...



Para um concurso gastronômico...



Sushi brasileirinho


Arroz para sushi
Feijão preto cozido e temperado
Paio selado
Laranjas
Folhas de couve escaldadas
Pimenta dedo de moça
Temperos para vinagrete



Trocando gastronomias com Henrique (amante de azeites, temperos e sushis) surgiu a idéia do sushi de feijoada...

Para testar sua validade-sabor, convidei Lorena, filha postiça (será o nome?) e amiga da faculdade para realizarmos a experiência gustativa.

Mise en place* preparado a rigor com sudares**, ingredientes frescos, hashis**, woks*** e tiwans**...

Cheiros e sabores espalhados em pequenos potes lembravam as caixinhas da memória em que vamos acomodando nossos saboreios da vida.

Lugar para o azedo, o doce, o salgado e o amargo...****

Separados, cada ingrediente-acontecimento com seu sabor, mas acompanhados, exibem-se em texturas-realizações-sensações tão únicas...

De recheio...supremes de laranja, paio à pont-neuf* e creme de feijão...que davam cor ao verde-branco, como os povos imigrantes imprimem cores à cultura brasileira.

O creme de feijão como recheio diluiu o sabor da preparação se assemelhando ao imigrante japonês que hoje nos confunde: é japonês-brasileiro ou brasileiro-japonês?

Interessante como o sabor se alterou quando o creme foi acomodado no leito da couve, antes do arroz...

Entre “agoras, sim, mãe!” e “experimenta, filha!” construímos o objeto do projeto.

Eu olhava pra ela...e ela, pra mim...

E ríamos da nossa grande brincadeira-aventura gastronômica...

...e a grande diversão ficou na cozinha...

O concurso? Esse não vingou!

Mas o cultivo da amizade, a exploração de sabores e a troca de saboreios... foi a nossa homenagem aos 100 anos de imigração japonesa...















Mirepoix



* Ione Teichmann – Tecnologia Culinária

** Hiroko Urakami – Japanese Family-Style Recipes

*** Coleção A Grande Cozinha – Cozinha na panela Wok

**** Prof. Dr. Luís Fernando Santos Escouto – Educação para o sabor

terceiro...OVOS...quinto...




“Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves
dentro do coração...*
Milton Nascimento






Ovo Frito


A questão não era o que fazer para saborear a amizade naqueles momentos e sim, o saboreio da vida, das conquistas.

Pensei então...

Ovo frito-formatura, cebola picadinha-mais formatura, pão francês-aprovação em concurso, guaraná-troca de apartamento...


Amiga, irmã, vizinha, Maguinha...

Algumas vezes em cochichos degustativos no fim do dia, lembrou que sua mãe sempre fazia...

Nossa! Quantos sonhos-ovos, dificuldades-pães saboreamos nos dois anos em que convivemos de pertinho!

- Tem cebola, neguinha?
Então traz que aqui não tem!

O elevador parece que sabia o caminho...do terceiro para o quinto, do quinto para o terceiro andar...

Ovo fritinho na manteiga, bordas crocantes como eram crocantes e untados os projetos divididos...

"...mas quem cantava, chorou
Ao ver o seu amigo partir...
...mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou...*


Era o meu jeito de dizer: amo você!

"...amigo é coisa pra se guardar
no lado esquerdo do peito
mesmo que o tempo e a distância digam “não”
mesmo esquecendo a canção.
O que importa é ouvir
a voz que vem do coração.*


Hoje saboreamos as lembranças desses momentos em família...

A amizade é a mesma...mas com outro endereço.

"...pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo eu volto
a te encontrar.
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.*





Mirepoix
* Milton Nascimento – Canção da América

escolhas...BANANAS...refúgio...






“Nosso propósito é: no poder do amor, glorificar a Deus, fazer discípulos de Cristo e viver em comunhão santificadora!*

Bolo de banana


6 bananas amassadas
2 ovos
2 xíc. de farinha de rosca
2 xíc. de açúcar
½ xíc. de óleo
1cs de fermento em pó


Algumas das vezes que preparei esse sabor, ofereci a alguém louco por bananas e que, sem saber, ajuda a rever-me e a reconstruir-me.

Bananas amassadas numa bacia, da mesma maneira como somos esmagados pela dor, pelo aprender e pela cura...

Em suas pregações, disse algumas vezes:
- Não tá doendo? Mas vai doer! Dando o alerta que não há crescimento sem dor, nem cicatrização e cura sem limpeza.

Agregados às bananas, diferentes texturas e sabores – ovos, farinha, açúcar, óleo e fermento. Assim como é diverso o universo de aprendizados degustados à luz da Bíblia.

Os ovos emulsionam como nossa alma é emulsionada ao toque do Espírito.

A farinha de rosca dá consistência como o agir de Deus nos dá força.

O açúcar adoça e saboriza como o cuidado do Pai promove a segurança em nós.

O óleo unge como o amor ágape pincela paz em nossa alma.

E o fermento? Ahh...esse faz crescer com leveza como quando permitimos que Deus transforme o nosso coração.

Tudo misturado e descansado na assadeira, assim como quando nos percebemos confusos em meio às escolhas e buscamos refúgio nos braços divinos...

Nada que um bom e aquecido forno não transforme em doce aroma e suave sabor, assim como quando o ouro é refinado pelo fogo e nossa alma é moldada pelo amor.




Mirepoix


*Propósito da IBV7 – Igreja Batista Vila Sete de Maringá

terça-feira, 18 de maio de 2010

branca....ROLHAVINHO...preta...





...uma amizade,
um vinho e uma rolha moída...










1 garrafa de vinho (qualquer um que te lembre amizade)
Pãezinhos de queijo (daqueles prontos e congelados)


Sabe daquelas amizades que começam na porta de pré-escola entre deixar pimpolhos, buscar pimpolhos?

Foi assim...

Filhos...sempre nos proporcionam momentos ímpares!

Ela...com três barrinhas de Laka...como meus filhos brancos são brancos!!!

Eu...com uma...barrinha de Lacta ao Leite...meu mosquitinho!!!

Mana branca...mãe preta...mana preta...mãe branca...

Compartilhamos tantos momentos-sabores...sempre regados com vinho-pão-de-queijo, espetinhos de frango, bolo de cenoura, batata frita e até mesmo chips com guaraná...

Com o tempo, receitas-conselhos, risadas-choros, neuras-nóias e tudo o que vinha, marinávamos em doces goles de vinho e abundantes momentos de vida...

Até hoje não sabemos se somos preta de alma branca ou branca de alma preta...

Já tentou degustar arroz sem feijão, queijo sem goiabada, sushi sem shoyu, couve sem torresmo, pêssego sem creme de leite ou mesmo pão sem manteiga?

Não importa se longe ou se perto, sabemos que a branca está lá e a preta está aqui...e sempre podemos contar...

Lembro-me do filme Pinóquio...

o grilo falante...é a consciência do pequeno boneco...

Deu pra entender??

Em meio a pãezinhos de queijo, um vinho saboroso e que de tão especial não quis largar a rolha para sentirmos seu aroma...

Ríamos daquelas tentativas inúteis...

Com a ponta do sacarolhas fui cutucando até que os farelos se espalharam pelo vinho como nossos risos e choros salpicavam momentos de intensa terapia...

Aquele dia ficou na história...

Se bebemos o vinho??? Claro!!!

Depois de coá-lo...

aroma...PICANHA...Ele...






"...você me disse que eu sou petulante, né? Acho que sou sim, viu?..".* Oswaldo Montenegro




Picanha do avesso


1 peça de picanha
Sal grosso
600g de provolone


Essa foi a primeira receita que o lançou na cozinha!

"...como a água que desce a cachoeira e não pergunta se pode passar..."*

Gostava de fazê-la aos domingos em que ele, nossa filha e eu ficaríamos em casa degustando o final de semana e os (dis)sabores da vida em família.

Regava esses momentos-degustação com seus DVD’s favoritos: Eagles, Roupa Nova, Norah Jones, Phil Collins...

Momentos que aqueciam a casa e o nosso coração com o sabor-calor-amor que proporcionavam.

Poucas vezes preparou para os amigos (e só para aqueles... mais chegados que irmãos!**)...

Era a sua maneira de dizer que amava...

Lembro-me do Lacerda que mudou-se com a família para o prédio depois de uma dessas degustações... os dois eram José, curiosos, projetistas e inventores...e essa parceria dava certo, muito certo...

Saudades...sabores...lembranças...

Caminhava até o açougue da esquina, escolhia a carne, comprava o carvão.

Estojo de churrasco sobre a mesa da cozinha, ele o abria com cuidado, verificava se faltava algum de seus utensílios.

Era só esperar...

Sempre reclamava que a faca do estojo não era boa para aquele serviço.

"...você me disse que o meu olho é duro como faca... acho que é sim, viu?..."*

Pegava a tábua de carne e debruçava a picanha sobre ela com o mesmo cuidado que, muitas vezes o vi embalando nossa filha.

Dizia que se a picanha pesasse mais de um quilo e duzentos, um quilo e trezentos era pura enganação.

- Ó a do cara, meu, querendo me enrolar! E ria, seu sorriso abundante...

Perfurava a peça de ponta a ponta e, como se fosse a jóia mais delicada, começava a virar literalmente a carne pelo avesso.

Gordura toda pra dentro, era a hora de recheá-la com o queijo, da mesma forma como recheava com suas piadas os momentos com os amigos.

Cortava o queijo à pont-neuf*** e enchia todo o corte da carne com as tiras.

O interessante era que ninguém podia colocar a mão, mas podíamos esperar por um “filha, pega isso...”, “querida, arruma aquilo...” ou mesmo um “aqui tá tudo certo, ninguém precisa ajudar, viu?”...

Ríamos os três da sua independência culinária!

Chegava a hora do sal grosso. Despejava todo aquele sabor numa caixa plástica e envolvia a peça nas pedrinhas que lembravam momentos amargos e de ansiedade, prenúncios de bonança e felicidade.

...e que destruo sempre com minha palavra o que me incomodou...acho que é sim...como fere e faz barulho o bicho que se machucou...*

Levada ao fogo por uma hora e depois virada por mais uma hora...

Horas que resgatavam nossas esperas...o casamento que chegava, a filha que nascia, o emprego que surgia, a mudança que viria...

Depois de pronta, reunidos à mesa, compartilhava seu troféu-aroma-textura com a gente.

Hoje eu, nossa filha e os amigos degustamos lembranças-sabores...
...ele, louvores-aromas do céu.




Mirepoix


* Oswaldo Montenegro – Todo mundo é lobo por dentro (petulante)

** Bíblia Sagrada – Provérbios 18:24b

conselhos...ISCAS....curas...





...eletricista,
amigo,
contador,
conserta-tudo...
mas o meu nome favorito é pai, o MEU Pai...






Iscas de fígado com cebola

1 kg de fígado de boi
Sal
1 cebola média em rodelas
Suco de limão e pimenta


Aconteceu, se me lembro bem, em algumas quartas-feiras. Meu pai vinha com minha mãe até minha casa para juntos saborearmos a vida-receita.

Eu preparava o mise en place* com antecedência para não desperdiçar um só momento daquele sabor concentrado em conselhos, curas, orientações contábeis e consertos pela casa.

Um fio de azeite na panela, alho brunoise* e o aroma perfumava o ambiente como o amor de meu pai perfumou minha vida tantas vezes.

Fígado cortado à mignonnette*, lembrava os pequenos momentos que construíam relação pai-filha, temperados com sal, amor, pimenta, calor e suco de limão – para ajudar a derreter os ransos.

Mais uma vez o ambiente era perfumado com outro aroma, mais forte, mais intenso como os momentos de dor em que ele, o meu pai, me acolheu e me amparou.

Ah...como eu poderia imaginar que passaria por tamanha dor?

As rodelas de cebola e o cuidado do pai vinham para suavizar momentos tão doloridos...

À medida em que os cubos de carne iam sendo cozidos e adquiriam coloração, a vida que agora se apresentava era remodelada, reconfortada, reconstruída...

Aquele sabor, aquecido pelo zelo e amor se juntavam a um arroz branquinho recém-feito e a uma salada de agrião fresquinha...

Hoje das degustações vividas com ele, saboreio as preparações que há um mês deixaram de ser reais e são lembranças, somente lembranças.


Obrigada, Pai! 22/5/2008








Mirepoix

* Ione Teichmann – Tecnologia Culinária

Lorena....BOLO....cenoura...





“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho, não se desviará dele.” Provérbios 22:6




Bolo de cenoura


3 cenouras
2 ovos
1 xíc. de óleo
1 xíc. de açúcar
3 xíc. de farinha de trigo
2cs de fermento em pó
Chocolate ao leite para cobertura


Nos seus cinco anos, minha morena-pequena-Lorena me surpreendeu com seu pedido...festa de aniversário na escola e o bolo...ah, o bolo...
tinha que ser o de cenoura que eu fazia com cobertura de chocolate!

Quando somos mães e pais de primeira mão, já viu, fazemos tudo por eles...

Cenoura fresquinha picada e batida com os ovos e o óleo no liquidificador.

O barulho e o movimento do aparelho chamavam a atenção do meu mosquitinho que corria para a cozinha com a sua contribuição para a construção daquele amor-sabor.

Como os risos da criança constroem movimento na casa!!

Em cima do banquinho, ela fazia questão de peneirar a farinha, o fermento e o açúcar...

- É assim, mamãe?

As primeiras vezes em que me ajudou, a cozinha...bem, a cozinha parecia um grande, movimentado e sujo, bem sujo estúdio da Ana Maria Braga...

Potes – Opas!

Mais potes – Mais opas!

E sempre um “ai mamãe, desculpa, caiu...”

Com o tempo, já não sobravam especiarias nos vidros, pois viravam experimentações de uma grande chef.

Massa pronta, assadeira preparada e lá ia ao forno aquele bolo tão simples, mas recheado de aventuras-aromas e conversas-sabores trocados em meio à bagunça.

Frio e desenformado foi coberto com chocolate ao leite derretido e decorado com jujubas, confetes e gominhas coloridas espalhados por toda a superfície.

Era a hora...

Meu coração marinou em alegria e satisfação quando na escola, os amiguinhos confirmavam a gostosura daquele sabor-amor e ela, séria, mas com a vivacidade da criança dizia: Foi minha mãe que fez!

Fim da festa...

Presentes, carro.
Aparatos da festa, carro.
Pequena dormindo, carro...
e uma bandeja quase esquecida na escola,
marcada por dedinhos de chocolate com gostinho de felicidade – OBRIGADA !

memórias ...BRÓCOLIS...amores...



"...sinto dizer que amo mesmo,
tá ruim pra disfarçar"
*Ana Carolina – Quem de nós dois













Carne com brócolis


200g de carne
(alcatra, coxão mole, mignon ou mesmo patinho)
temperados com 2cs de shoyu, 2cc de amido e 1cc de açúcar
1 maço de brócolis japonês
1 fio de azeite
sal
½ copo de caldo de frango
½ cs de amido de milho


Essa receita embora simples esconde uma explosão de sabores-brócolis como o nosso encontro naquele dezoito de maio.

Ingredientes separados, expectativas criadas, emoções-sabores que nos vêm à tona quando somos surpreendidos pelo sonho realizado, pela receita aprendida, pelo estar apaixonado...

Carne cortada à macedoine*** que se compara aos pequenos e corridos momentos de um bate-papo no msn durante o ano, temperados com shoyu... tensão... amido... identificação... açúcar... carinho...

"...no vão das coisas que a gente disse, não cabe mais sermos somente amigos..."*


À parte, o brócolis japonês cortado em pequenos buquês como os momentos em que a sensibilidade ou a carência, sei lá, tinham lugar e nossa alma se mostrava...

...quem de nós dois vai dizer que é impossível o amor acontecer?...*

Selamos a carne para que o sabor se concentre no interior e exploda em suaves agridoces prazeres...

Como aquele roubado – saboroso – beijo – longo na despedida...

Pode um único beijo te dar a certeza de que é a pessoa, de que o amor da sua vida é como você imaginou; tem o cheiro-sabor que você tantas vezes idealizou e no encontro-degustação se harmonizou?

...é um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado...**

Feita na wok...

- Como? Me pergunta com a curiosidade que motiva você para conhecer as coisas...
e repetiu...wak? wok? Com ó?

Rodoviária...azeite...encontro...carne...casa...brócolis...

O assemblage*** está pronto: a carne se une ao brócolis que se une à carne como o amor une as pessoas-texturas tão diferentes com sabores-cheiros-amores tão iguais...

...como o encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ele, eu sei que é ele porque há um rastro de luz quando ele passa..."**

"...e quando ele me abre os braços eu me crucifico neles banhada em lágrimas de ternura..."**


Degustados o momento e a preparação, a memória se encarrega de guardar os fatos, reter as emoções e resgatá-los quando a dona saudade bater à porta pedindo de volta o que é seu.

...e quando eu falo que eu já nem quero...
a frase fica pelo avesso, meio na contramão...
...e quando finjo que esqueço, eu não esqueci nada...
...e cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
e te perder de vista assim é ruim demais
...e é por isso que atravesso o teu futuro
...e faço das lembranças um lugar seguro...*





Mirepoix
*Ana Carolina – Quem de nós dois
** Vinícius de Morais – Amor por entre o verde
*** Ione Teichmann – Tecnologia Culinária

domingo, 16 de maio de 2010

saudades...ESFIRRAS....infância...




“Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
Casemiro de Abreu



Esfirra

2 tabletes de fermento
3 copos de leite morno
5 cs de açúcar
1 cs rasa de sal
3 cs bem cheias de banha Saúde
Farinha de trigo para amassar.
Deixar crescer.
Recheio a gosto.


Quando minha mãe misturava o fermento, o leite, o açúcar e o sal...
O cheiro morno se espalhava pela casa e com ele a boa-nova: hoje tem esfirra!
Essa receita aromatizava e completava a festa nas tardes em que o calor do sol dava lugar às gotas frias da chuva e que não podíamos correr pelo quintal...
Mesmo assim, saboreávamos correr pelos cômodos da casa, numa algazarra aconchegante.
As esfirrinhas da mãe completavam as viagens de férias para a casa dos avós em Antonina. Quando a mãe falava em esfirra, era só esperar...coisa boa sempre vinha...

A comunhão, a festa, o compartilhar...o saborear a infância...

Assim como os grãos finos e aerados da farinha se pega-pegavam divertidamente na bacia quando ela era peneirada, meus irmãos e eu bailávamos pela cozinha, esperando o momento em que o calor do forno aquecesse o nosso coração como o amor e o carinho da mãe.
Um “olha o forno” ou um “parem de correr pela cozinha” sempre surgia em meio a todo o sabor que experimentávamos.
A gordura usada na preparação tinha que ser Saúde. Segundo a mãe, melhor não tinha para completar o sabor e amaciar...

Massa a crescer, hora de preparar o recheio.
Carne moída, cebola bem picadinha (para que os pequenos não encontrassem vestígios!!), cheiro verde, sal, um toque de pimenta e tomates à parisiénne*.

Huuummmmm...

Recheio pronto, massa crescida em bolinhas enroladas uma a uma como os carinhos que a mãe fazia na gente nos momentos de dor...
Uma a uma ela abria e colocava um pouco-sabor do recheio e as fechava cuidadosamente em triângulos.

Quantas vezes em meio ao ritual, invadimos a cozinha, querendo ajudar na construção dos sabores...as primeiras esfirrinhas saíam meio quadradas, tortas e se abriam quando assadas, deixando que o caldo da carne escorresse pelas assadeiras...nesse momento a expectativa se realizava naquele cheiro-sabor, calor-amor que invadia a casa como o amor invade nosso coração.

Cada poro, cada vão, cada alma, cada cômodo...

Indicativo de que a degustação estava próxima, de que a viagem estava ali a uma noite e que tudo isso, nas mentes infantis, seria eterno, como se esquecêssemos que a vida só começava...

Valia a pena! Melhor nem lembrar... para que o sabor daqueles momentos não se tornassem razão!

Ainda hoje quando nos reunimos pra jogar conversa fora e contar as novidades, vira e mexe, aquele aroma-sabor está lá!

Preparadas não mais com a agilidade de outrora, mas com o mesmo saboroso amor...

Acompanhantes fiéis das esfirrinhas da mãe eram os pãezinhos de maçã...

Mas isso já é uma outra história-sabor!...



Mirepoix
*Tone Teichmann – Tecnologia Culinária

Quem sou eu ?





Sou a Chris !
Criada para ser adoradora...
Projetada para ser boa filha, excelente esposa, eficiente mãe, profissional realizada...
Em (re)construção sempre...
Maringaense feliz!
Um objetivo: fazer diferença.
Um sonho: viver tudo o que me pertence.
Uma vontade: conhecer o mundo.
Uma necessidade: fazer felizes pessoas que amo.
Um defeito: querer fazer tudo certo sempre.
Uma virtude: sinceridade comedida.
Uma busca: a maturidade.
Uma mania: aaafffffffff...ninguém merece!
Um amor: Deus e minha filha.
Um sentimento: conforto de alma.
Uma dor: as perdas pelo caminho.
Uma frustração: ...abafa o caso!...
Uma saudade: meu pai.
Um exemplo: minha família.
Um livro: a Bíblia.
Um aprendizado: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.” (Rom.8:28 a)
Uma música: Adorador por excelência.
Um novo caminho: a Gastronomia.
Uma opção: ser tratada.
Um exagero: ser intensa.
Uma indicação: terapia.
Um segredo: se eu contar, perde a graça!
Uma surpresa: IR (heheheee)
Um carro: o que tenho.
Uma conquista: amigos mais chegados que irmãos.
Uma experiência gastronômica: spaguetti de caipirinha.
Uma casa: a minha.
Um lugar: minha sala.
Um objeto: meus óculos.
Uma sensação: degustar.
Um beijo: aquele roubado na despedida.
Um doce: chocolate.
Um salgado: pão.
Um gostinho: abraço apertado.
Uma facilidade: sorrir.
Um repúdio: mentira.
Um dia: 8/8/92.
Um conselho: “não faça hora extra na vida alheia”
Uma sugestão: adorar a Deus sobre todas as coisas; honrar pai e mãe; e amar muuuuiiiiitttoooo!

Meus "saboreios " para vocês !




Enfim, criei coragem e aqui estou: blogueira...

A idéia vem sendo marinada em conversas, saboreios e vivências com mestres, amigos, alunos e amores que incentivam e apóiam...e a parte que mais gosto: gostam do que escrevo...

Tudo começou no curso de pós em Gestão em Gastronomia numa disciplina em que tinha que produzir um texto gustativo...pra quê? De lá pra cá, não parei mais de degustar e saborear a vida!

Quero deixar claro que os textos que irão encontrar no meu blog, são saboreios que faço da minha história, das minhas experiências – amargas, doces, suaves e salgadas - bem como de momentos vividos em família, com amigos e com amores...e, alguns até com os ditos “inimigos”, se é que eles existem...sei lá, posso não querer enxergá-los...vai saber!

Mas a idéia cresceu de um tanto que estou aqui...não pensem que fui capaz de realizá-la sozinha, afinal, minha praia é escrever, amar e viver...minha Mana Branca concretizou esse sonho e irá administrar este espaço para mim. Ainda estamos em construção, na vida e no blog.

Espero que aproveitem os meus saboreios e lembrem-se dos de vocês...revejam histórias, degustem receitas e lancem olhares para vocês e para o mundo.

Somos um livro de receitas, sabe daqueles que estão sujinhos em algumas folhas, pois nelas se encontram as receitas mais produzidas? Ou com folhas em branco que ainda vão receber receitas importantes? E ainda aquelas que nem estão sujas nem em branco, mas estão lá?

E não é assim a vida?

Saboreie os meus saboreios, comente-os se quiser e fiquem à vontade!

Sejam bem-vindos e que vocês sejam daquelas pessoas que chegam por algum motivo e acabam ficando...

Beijos polvilhados no coração e bom saboreio!

Chris